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Mascote da Copa de 2014, tatu-bola deve ganhar novo plano de proteção

thiago 25 de junho de 2026

Mascote da Copa do Mundo do Brasil, em 2014, o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) ainda tem o futuro ameaçado pela perda de seu habitat natural. Mesmo após tanta visibilidade, o Fuleco da vida real continua na lista de animais sob risco deextinção, e um novo plano de proteção a essa e outras espécies deve ser lançado neste ano para tentar mudar esse cenário.

Típico da caatinga brasileira, o animal é encontrado em estados do Nordeste, como Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Mas, para sobreviver, tem precisado driblar empreendimentos energéticos, como a instalação de placas solares e turbinas eólicas, além de estradas e o avanço da agropecuária, lista Flávia Miranda, coordenadora científica do Programa de Conservação do Tatu-bola, da Associação Caatinga.

“As fazendas solares estão sendo muito utilizadas na caatinga e, infelizmente, ficam no pé de uma montanha, área de que o tatu gosta”, disse. Ela explica que as placas não permitem que a vegetação cresça, atrapalhando o modo de vida do animal. Sem a mata, acrescenta, o bichinho fica ainda vulnerável a incêndios econtaminação.


Tatu Bola. Foto: Samuel Portela/Divulgação

Tatu Bola. Foto: Samuel Portela/Divulgação

A caça predatória e de subsistência, para comer, ambas ilegais, ainda fazem parte da cultura regional e também são um perigo. Com a conscientização, principalmente, após a Copa do Mundo, a prática vêm sendo enfrentada, conta o sertanejo Lourisvaldo Camilo, do Projeto Ecologia e Conservação Participativa do Tatu-Bola, da Chapada Diamantina.

Hoje, Lourisvaldo é um dos responsáveis por capturar o bichinho, em roteiros de turismo científico, em Sumidouro (BA). “Quando a gente era criança, e a situação era ruim, o custo de vida [era alto], a gente pegava o tatu para se alimentar. Mas agora, não, sabemos da importância dele e trabalhamos para preservá-lo”, contou. “

Assim como nós [seres humanos], eles têm o direito de existir, são parte da natureza”, defendeu.


Rio de Janeiro (RJ), 19/06/2026 –  Lourisvaldo atua no projeto ECP Tatu-Bola, na Chapada Diamantina, na Bahia
Foto:  Lourisvaldo Camilo/Arquivo pessoal

Lourisvaldo atua no projeto ECP Tatu-Bola, na Chapada Diamantina, na Bahia Foto:Lourisvaldo Camilo/Arquivo pessoal

Pela combinação de ameaças, o tatu-bola permanecedesde 2014 como uma espécie ameaçada de extinção, classificado como “em perigo” na lista de fauna ameaçada, a segunda mais preocupante, na escala oficial atualizada neste mêspelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Na Copa do Mundo de 2026, há três mascotes que representam os países-sede: a águia-careca (Estados Unidos), animal que foi salvoda extinção;o jaguar (México);e o alce (Canadá).

Preservação do habitat

A ampliação das áreas onde o tatu-bola vive, por meio da criação e expansão de unidades de conservação, é uma forma de protegê-lo, segundo os especialistas.

No início de junho, o governo federal, como parte do plano de proteger a caatinga, ampliou o Parque Nacional da Serra das Confusões, incorporando 92 mil hectares à área total da unidade, de 916 mil hectares, e prometeu a extensão do Parque Nacional de Sete Cidades, duas das mais importantes unidades de conservação do Piauí.

Aliada à Política Nacional para Recuperação da Caatinga — que prevê medidas de preservação e recuperação, também instituída em junho — a ampliação dos parques foi importante para salvar o Fuleco, disse o gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, o agrônomo Emerson Antonio de Oliveira.

Segundo ele, aquela área é única e concentra, além do tatu-bola, outras espécies ameaçadas, comoonças e pássaros.

“A área da Serra das Confusões, que está próxima à Serra da Capivara, é uma das regiões mais importantes do ponto de vista biológico no Brasil, porque é uma região de contato entre a Caatinga, o Cerrado e floresta densa, há ali um enclave de Mata Atlântica”, explicou. “Ou seja, são três diferentes ecossistemas com uma riqueza de biodiversidade”.


Serra das Confusões no Piauí. Foto: Emerson Oliveira/Divulgação

Serra das Confusões, no Piauí. Foto: Emerson Oliveira/Divulgação

Os municípios e os estados também podem colaborar protegendo as áreas onde vivem os tatus. Mas não basta criar um parque ou reserva natural, é preciso criar condições para a unidade funcionar, garantindo investimentos e orientando a gestão.

O biólogo Felipe Melo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi um dos especialistas que lutaram para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Tatu-Bola, em 2015, a maior unidade de conservação pernambucana, de 110 mil hectares. Pouco depois, no entanto, a área sofreu pressões, por demora na elaboração de um plano de manejo, documento que norteia quais as prioridades para a gestão da unidade.

Melo, que é coordenador do Laboratório de Ecologia Aplicada da UFPE, denuncia que a unidade só existe no papel.

“O plano de manejo, por exemplo, se construído de maneira correta, com participação popular, poderia resolver a maior parte dos conflitos com moradores e agricultores na região”, afirma.

O pesquisador explicou que atividades tradicionais da reserva, de agricultura familiar, são compatíveis com a preservação do tatu no refúgio silvestre e reforçou que desapropriações não foram previstas na área.

O decreto de criação da RVS Tatu-bola determinava que o plano de manejo e a instalação de um comitê gestor deveriam ser feitos em um ano, o que não ocorreu 11 anos depois.O governo e a Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco, procurados por e-mail e telefone para esclarecer a razão do atraso, não responderam à Agência Brasil.

Nova estratégia

Para garantir a sobrevivência do mamífero, está próximo de ser lançado o Plano de Ação Nacional para Conservação do Tamanduá-Bandeira, Tatu-Canastra e o Tatu-Bola, chamado de PAN Tatá. O trabalho é liderado pelo ICMBio e conta com órgãos ambientais, cientistas e organizações da sociedade civil.

O objetivo é diminuir as principais ameaças a cada espécie do PAN nos próximos cinco anos, por meio de ações como mapeamento genético e o combate ao atropelamento eà caça.

Também é prioridade a mobilização de comunidades rurais. O projeto prevê conscientizar agropecuaristas sobre os impactos de agrotóxicos, ataques de cães edoenças e evitar conflitos com apicultores, no caso do tatu-canastra.

No planejamento do ICMBio, foram delimitadas as áreas mais importantes para conservação da espécie com a intenção de incentivar os governos a atuarem juntos. A maior parte delas fica no Piauí, onde o governo federal ampliou as unidades de conservação.

“As áreas foram escolhidas por vários motivos, como por termos vários registros da espécie e mais unidades mais bemconservadas”, explicou a coordenadora do PAN, a analista ambiental do ICMBio Renata Bocorny de Azevedo.

A priorização, segundo ela, colabora para orientar os órgãos municipais e estaduais, indicando onde os esforços ambientais são mais necessários.

Na Bahia, também são áreas estratégicas para salvar o Tolypeutes tricinctuso Parque Nacional Boqueirão da Onça e os Parques Estaduais de Canudos, Sumidouro e Morro do Chapéu, acrescentou Flávia Miranda, que é também membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). Depois, na sequência, listados como mais áreas chave para proteger o tatu-bola estão o Tocantins e Pernambuco.

Donos de propriedade rurais também podem contribuir para a formação de corredores ecológicos, que ajudam o tatu-bola acircular, transformando fazendas e sítios em Reservas Particulares do Patrimônio Natural, recomenda a especialista em conservação.


Brasília (DF), 22/06/2026 - Arte Tatu Bola. Arte/Agência Brasil

“Engenheiro de ecossistema”

O mascote de 2014tem comportamento noturno, passa o tempo na vegetação seca da caatinga e só sai para se alimentar.

Ele come formigas, cupins, larvas e pequenos insetos, colaborando para o controle de pragas. Na natureza,tem ainda o papel de movimentar nutrientes da terra, regenerar e servir de alimento para animais maiores, como onças.

“Os tatus, em geral, na caatinga, são o que a gente chama de engenheiros de ecossistema”, disse o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Felipe Melo.

Ele explicou queo hábito do animal, de cavar efazer tocas, revolve sedimentos e contribui para a qualidade do solo.

“Onde o tatu vai, ele regenera”.

Exclusivamente brasileiro, ele ainda temuma característica única: para se proteger, ele se enrola completamente, formando uma bola de 30 centímetros, mais ou menos o tamanho de um coco, totalmente coberto por sua carapaça. Esse mecanismo de defesa é quase impenetrável e permite que oTolypeutes tricinctusse proteja de predadores. Porém, deixa o tatu vulnerável aos humanos, que podem simplesmente apanhá-lo no chão.

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